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Todos já sabem: depois do “Réveillon”, já é hora de se preparar para pôr “o bloco na rua”. É Carnaval! A cidade do Rio de Janeiro se mostra generosa com aqueles que estão dispostos a brincar, no sentido mais “puro” da palavra, nas ruas ou simplesmente assistir ao desfile das escolas de samba na Marquês de Sapucaí. Mas ser folião nem sempre foi algo prazeroso; por vezes, oferecia perigo!

Herança do entrudo (do latim introitus que significa entrada, começo, que faz referência ao começo das solenidades da Quaresma) importado dos Açores e mesclado às mascaradas italianas, o Carnaval tem suas origens na forma mais generalizada e popular de brincadeira de rua. No entanto, as festividades do entrudo já existiam, antes do Cristianismo, e eram realizadas sempre na mesma época do ano, servindo para celebrar o início da primavera.

Com o advento do cristianismo, o entrudo passou a fazer parte do calendário católico, indo do Sábado Gordo até a Quarta-Feira de Cinzas. Só mais tarde, mais precisamente no início do século XX, foram acrescentados os elementos africanos que contribuíram de forma significativa para compor a singularidade do nosso conhecido Carnaval.


Pintura de Debret, retratando o Carnaval no Brasil escravocrata.

No Brasil e em Portugal, os festejos eram bem diferentes do que ocorria na Itália à época do Renascimento. Eram brincadeiras sujas, grosseiras e, até mesmo, violentas, onde se praticavam algumas atrocidades e certos abusos em nome da folia. Escravos usavam ovos, farinha de trigo, polvilho, cal - com o risco de cegar as pessoas-, restos de frutas e comidas para se lambuzarem uns aos outros.

Enquanto isso, os brancos jogavam água suja em quem passasse distraído sob as janelas das casas; tudo dentro da quebra de rigores do regime patriarcal da época. Foi esse Carnaval que aqui chegou, trazido pelos foliões nas primeiras caravelas portuguesas.

Depois de anos de protestos, o entrudo foi se “suavizando” por conta da substituição das substâncias desagradáveis, que eram antes utilizadas, por outras mais toleráveis como: os limões de cheiro (esferas com água perfumada) e as bisnagas ou frascos de borracha com líquidos, geralmente groselha, vinho ou vinagre, o que mais tarde vai servir de base para a introdução, em 1885, do lança-perfume. Mais tarde juntaram-se a este o confete e a serpentina, ambos trazidos da Europa.

O Carnaval carioca, ainda entrudo, surgiu em 1641 e foi realizado pelo governador Salvador Correia de Sá e Benevides em homenagem ao rei Dom João IV, restaurador do trono de Portugal. A festa teve a duração de uma semana, do domingo de Páscoa em diante, com combates entre foliões, desfiles blocos de sujos e mascarados. Outra festividade do gênero ocorreu em 1786, coincidindo com a comemoração do casamento de Dom João com a princesa Carlota Joaquina.

Figura pitoresca do Carnaval carioca: o Zé-Pereira

Atribui-se ao sapateiro português José Nogueira de Azevedo Paredes a introdução, em 1846, do hábito de animar a folia com tambores e zabumbas em passeatas pelas ruas do Rio. Aproximadamente meio século depois, foi encenada a peça Les Pompiers de Nanterre (Os Bombeiros de Nanterre) na qual o ator Francisco Correia Vazques cantou a seguinte quadrinha: “E viva o Zé-Pereira / Pois que a ninguém faz mal / Viva a bebedeira / Nos dias de carnaval”. Eternizou-se, dessa forma, o então consagrado personagem da folia carioca.

Os bailes de Carnaval

O primeiro baile de máscaras aconteceu em 1840, no hotel Itália, no largo do Rocio, onde mais tarde se ergueria o teatro e depois cinema São José, na Praça Tiradentes. Uma curiosidade: a entrada, que dava direito a ceia, custava dois mil réis. Porém, o grande momento dos bailes começa em 1870 quando o teatro Pedro II, o teatro Santana, o Clube Guanabara, o Clube Rio Comprido e a Société Française de Gymnastique aderiram à moda, acontecendo tanto em teatros quanto em estabelecimentos populares.

O carnaval vai se firmando assim como a principal festa popular do Rio de janeiro. Em 1901, Chiquinha Gonzaga divulga a marcha “Ô abre alas” e a música vai se tornando um poderoso veículo de sátira política. Tanto o samba como o maxixe eram considerados “obscenos” e os grupos que se dedicavam a fazer uso desses ritmos eram perseguidos pela polícia. Um fato que contribuiu para a difusão dos ritmos ditos populares foi o surgimento do gramofone, em 1904,levando para as casas o que era cantado nos estabelecimentos e nas ruas.

Em 1908 aconteceu o primeiro dos bailes do High-Life, que chegaram ao fim apenas nos anos 40 e, em 1918, acontece o primeiro baile dos Artistas, no teatro Fênix. O teatro Municipal realiza seu primeiro baile oficial, em 1932, e “abre alas” para outros como o teatro Glória, o Palácio Teatro, o Copacabana Palace, o Palace Hotel, o Cassino da Urca, o Cassino Atlântico, o Cassino Copacabana, o Palácio Quitandinha (em Petrópolis) e o Automóvel Clube do Brasil.


Carnaval no Rio Antigo*

Um salão em forma de navio foi construído, em 1935, pelo Cordão dos Laranjas na Esplanada do Castelo. Enquanto isso, o Municipal iniciava os concursos de fantasias de luxo que, originalmente, eram apenas femininas; nos anos 50 são introduzidas as fantasias masculinas. Mas os grandes bailes populares eram mesmo os realizados nos clubes do Botafogo, Fluminense, Flamengo, Vasco da Gama e América.

Nas ruas, principalmente após a chegada dos primeiros automóveis, acontecia o corso que consistia em cortejos de carros conversíveis com suas capotas arriadas e devidamente enfeitados. O local escolhido para o corso era a Avenida Rio Branco (Avenida Central) e, por vezes, se prolongava até a Avenida Beira-Mar, atingindo os bairros do Flamengo e Botafogo indo até o Pavilhão do Mourisco, no final da praia.

A classe média alta preferia se divertir nas imediações do Jóquei Clube, entre a Avenida Almirante Barroso e a Rua Araújo Porto Alegre, sendo que muitos levavam suas cadeiras e seus bancos que, mais tarde, foram substituídos por arquibancadas montadas pela prefeitura.


Cartão Postal, Carnaval Carioca - Pintura - detalhe


As sociedades carnavalescas

Curiosamente, as sociedades carnavalescas estavam atreladas à vida política da época. Surgidas na metade do século XIX, contavam com abolicionistas e republicanos em meio a atividades sociais e políticas. Os grandes clubes funcionavam, dentre as suas atividades, como sociedades literárias e musicais. Os participantes tomavam posição a propósito de questões coletivas ou contra possíveis erros e abusos das autoridades.

Escolas de samba

A Praça Onze foi escolhida pelos sambistas para a realização das concentrações, aos domingos e terças-feiras de carnaval, sendo a escola de samba Deixa Falar, do bairro do Estácio, a primeira a ser fundada em 1928. Ismael Silva, seu fundador, explicou que a designação “escola” era porque ficava próxima da Escola Normal, no mesmo bairro. Por isso, os sambistas locais eram tratados como “professores” ou “mestres”.

Com o passar do tempo, outras agremiações foram surgindo como a Estação Primeira, do morro da Mangueira, e a Vai Como Pode, mais tarde conhecida como Portela. Outras tiveram pouco tempo de existência e desapareceram.

A partir de 1932, os desfiles são oficializados e as escolas passam a recebe subsídios da prefeitura; em 1952 transformam-se em sociedades civis, com seus regulamentos e suas sedes próprias.

Seja como carnelevamen/carnelevarium (adeus, carne!) ou carnis levamen/carnem levare (prazer da carne), ambas derivadas do latim medieval, o importante é curtir o Carnaval carioca, os “sabores” e as “belezas” da cidade do Rio de Janeiro.

Por Ismênia de Araújo

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FONTES:
CASCUDO, Luiz da Câmara. Locuções tradicionais no Brasil (Recife, 1977).
Enciclopédia Barsa - Editorial Barsa Planeta, Inc. Todos os direitos reservados.
Enciclopédia Mirador
http://pt.wikipedia.org/wiki/Carnaval
http://www.suapesquisa.com/carnaval/
* http://g1.globo.com/Carnaval2009/foto/0,,18130461-EX,00.jpg
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