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América do Sul – A Pop Arte das contradições
rioecultura : EXPO América do Sul – A Pop Arte das contradições : Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM RJ)
ABERTURA:
20 de julho de 2013
ENCERRAMENTO:
14 de Agosto de 2013
LOCAL:
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM RJ)
Av. Infante Dom Henrique, 85
Aterro do Flamengo
(21) 2240 4944
FUNCIONAMENTO:
De 3ª a 6ª feira, das 12h às 18h
Sábado, domingo e feriados, das 12h às 19h
A bilheteria fecha 30 min antes do término do horário de visitação.
INGRESSO:
R$14 [inteira]
R$7 [meia]
Entrada gratuita [Amigos do MAM e crianças até 12 anos]
Todas as quartas-feiras a partir das 15h: entrada gratuita
Domingos ingresso família, para até 5 pessoas: R$14
Atenção: os horários e a programação podem ser alterados pelo local sem aviso prévio. Por isso, é recomendável confirmar as informações por telefone antes de sair.
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A década de 1960 na América do Sul foi atravessada por contornos específicos da Guerra Fria, com enfrentamentos ideológicos, utopia socialista, movimentos sociais, luta armada e resistência aos regimes militares, terrorismo de Estado, politização da arte, dependência do capital externo e as trocas artísticas entre entre a Argentina e o Brasil. A necessidade de fechar o foco conduz ao viés curatorial da resistência política. Não se trata de arte engajada no modelo zhdanoviano dos Partidos Comunistas, mas de arte como exercício experimental da liberdade, no aforismo de Mário Pedrosa. Entendida a impossibilidade de a arte mudar a sociedade, o signo estético assume sua potência de transformação do entendimento crítico do mundo. As referências internacionais da exposição incluem a Pop arte, sobretudo a norte-americana e a inglesa, oNouveau réalisme na França, além de processos como o Situacionismo, a Outra Figuración argentina, a Nova Objetividade e a Tropicália no Brasil.

A cultura popular é uma usina de produção de mitos que dão coesão a um universo simbólico e alimentam o imaginário social. A América Latina operou com dois mitos Pop de penetração internacional, extremamente carregado de conotações ideológicas de âmbito: um local, Che Guevara, e outro multinacional a Coca-Cola, nos termos do contorno negativo que toma na região como símbolo do “imperialismo ianque” e de negação das diferenças. A Otra figuración argentina foi um veemente mergulho crítico sobre a condição do sujeito moderno no turbilhão social de anonimato urbano, solidão na multidão, violência, fantasmáticas individuais, esgarçamento da subjetividade, déficit social, desesperança política e utopia. Macció, Noé, Deira e de la Vega propuseram uma outra forma de figurar este ser de um tempo social de mudanças e abandono. O impacto do grupo sobre os brasileiros é visível a partir de suas exposições no Rio na década de 1960. No oposto do trágico glamour hollywoodiano de Marilyn de Warhol, Berni criou personagens sociais como a prostituta Ramona e o menino Juanito Laguna, enquanto Gerchman elabora o retrato de Lindonéia. São situações metonímicas da relação indivíduo e sociedade. A melancolia do sujeito decorre de sua obliteração social. Aspectos contraditórios justapõem a Pop e seu viés nas comunicações de massas às sociedades sul-americanas onde ocorria a censura, o alto índice de analfabetismo (Brasil) e a expansão da televisão. Tais antagonismos contaminam a arte de extrato Pop na região.

rioecultura EXPO América do Sul – A Pop Arte das contradições

No contexto da Guerra Fria, a liberdade de expressão e a expansão dos meios de comunicação de massas eram apresentadas pela Pop como um imperativo das comunicações no sistema do capitalismo liberal. Marshall McLuhan torna-se um profeta da sociedade de comunicação global. Numa sociedade ágrafa como a brasileira das décadas de 50 e 60, a cantoria do cordel se convertia em pequenos folhetos ilustrados por xilogravadores populares. O corte tosco e a inventividade no trato da forma, tornou o cordel um modelo de gravura crítica e popular para Antonio Henrique Amaral, Anna Maria Maiolino, Manuel Messias e Samico. Ainda na Guerra Fria, a Revolução cubana cria um processo político de engajamento coma a utopia socialista. No Brasil em 1964 e logo na Argentina, as reações em forma de ditaduras militares levaram a uma arte de crise. A arte torna-se trincheira de resistência sob a forma de guerrilha simbólica. O artista ora é o homo sacer proscrito ora é aquele que torna visível o espetáculo obscuro da opressão política. A intencionalidade política demanda estratégias de comunicação e construção da relação significante e significado no envolvimento do público e nas formas de circulação da arte. O objetivo era manter a contundência e a legibilidade da mensagem, mas também estabelecer um modo de comunicação que garantisse a sobrevivência dos próprios artistas diante do aparelho de repressão do Estado.

A arte no período opera com as contradições entre o capitalismo avançado e o capitalismo periférico no eixo Norte / Sul. No extremo da pobreza, a sociedade de consumo da Pop deve ser justaposta ao consumo marginal e ao lumpensinato de Juanito Laguna de Berni. Do lado brasileiro, os debates sobre o espaço social, limitações e potencialidades da arte em países periféricos produzir linguagem autônoma aglutinam esforços de interpretação de Mário Pedrosa, Ferreira Gullar, Barrio e Haroldo de Campos.

A geografia de Milton Santos, que discute as contradições a explosão das cidades urbano nos países subdesenvolvidos. A multidão política emerge na pintura e na fotografia e em Divisor de Lygia Pape, opões entre presentar o signo da força coletiva ou engajar pessoas numa experiência de espaço compartilhado, um diagrama da vida social. Em suma, cabe pensar um ethos da arte nesse período. No contexto dos anos 60, a obra de Frantz Fanon sobre a persistência da mentalidade colonial repercutiu no Brasil com grande intensidade. Conceitos como Terceiro Mundo e a teoria da dependência movimentam o debate, ao lado de visões marxistas de múltiplas nuances. A antropologia no Brasil acentuou no entendimento das sociedades indígenas e da origem híbrida do Brasil, com o papel da África. Celso Furtado pleiteou que o subdesenvolvimento não se explica como “fase” a ser superada, mas como dimensão estrutural no capitalismo. Josué de Castro argumentou que a origem da fome era social e econômica opondo-se ao determinismo que naturalizava a condição endêmica no Brasil. Paulo Freire defende uma educação para a emancipação. Nesse quadro, o cinema de Glauber Rocha ou o teatro do oprimido de Augusto Boal são paradigmas de uma nova cultura.

A Bienal de São Paulo foi a instituição que propiciou um olhar amplo do Brasil sobre a arte argentina, cujos grandes movimentos dos últimos sessenta anos foram apresentados no evento. O crítico argentino Romero Brest foi a primeira voz internacional de apoio à Bienal paulista. A arte abstrato-geométrica de Buenos Aires estimulou a consolidação do concretismo brasileiro. O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro foi a instituição a manter laços mais densos com a Argentina e possui o maior acervo público de arte latino-americana no Brasil. Em 1965, o MAM carioca abrigou mostras como Otra figuración, um panorama da arte argentina e a retrospectiva de Antonio Berni. Ainda no Rio, manteve laços fortes com a Argentina até a década de 90 através dos galeristas Giovana Bonino, Jean Boghici e Thomas Cohn. Na segunda metade do século XX, no eixo Argentina-Brasil, parece ser que o Brasil tenha se beneficiado mais do regime de trocas entre os dois países. A marca argentina sempre foi mais visível sobre a produção brasileira que o contrário – melhor para o Brasil antropofágico.

Curador: Paulo Herkenhoff
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